O que são juros negativos?

Essa é uma expressão pouco discutida e de difícil interpretação para o cidadão comum. Atualmente, a taxa Selic está em 4,5% ao ano; isso significa que se você deixar R$ 1.000,00 investidos em um título de renda fixa durante um ano, você terá de rendimentos (juros) R$ 45,00.

Em 2014, a taxa Selic era de 14% ao ano. Usando esse mesmo cálculo, os R$ 1.000,00 iriam render R$ 140,00 de juros. Esse cenário era ideal para o famoso “rentista”, ou seja, o investidor que espera viver de juros no longo prazo.

Essa realidade mudou. Fazendo uma conta simples, esse investidor vai constatar que não vale mais a pena investir em renda fixa e irá buscar novas maneiras de rentabilizar seu capital. É exatamente isso que as novas políticas monetárias impostas pelo atual governo querem, ou seja, que o investidor busque novas taxas de atratividade e passe a assumir riscos na economia real.
Enxerga-se um cenário onde o investidor se vê obrigado a iniciar um novo negócio, adquirir uma franquia ou até mesmo comprar uma empresa já existente. Mas o que isso tem a ver com juros negativos?  A resposta é que juros negativos nada mais são do que o índice da taxa de inflação (medido pelo IPCA ou pelo IGP-M) descontada dos 4,5% de juros anuais.

Vamos considerar que a inflação medida nesse mesmo ano tomado como base seja de 3,5%. Isso significa que, apesar de ter ganhado os R$ 45,00, o poder de compra do investidor se reduzirá para apenas 1% de juros reais. Neste caso, existe uma falsa sensação de que o investidor ganhou os R$ 45,00 reais quando, na verdade, seu lucro foi de apenas R$ 10,00.

Se a inflação for maior que os 4,5%, então teremos um cenário de juros negativos. Isso acontece em países de economia sólida como, por exemplo, o Japão, onde o investidor, caso resolva deixar seu recurso financeiro na poupança, irá verificar que o dinheiro vai desaparecendo ao longo do tempo. Por isso, países mais desenvolvidos tendem a ter taxa básica de juros muito baixas como, por exemplo, os Estados Unidos, que atualmente contam com uma taxa de apenas 1,75% ao ano.
Portanto, a pergunta que surge, é: será que o Brasil chegará a ter taxa básica de juros tão baixa assim? Segundo o relatório do Banco Central, ainda existe margem para mais um corte na taxa Selic, que passaria para 4% ao ano.

Só nos cabe esperar os novos pronunciamentos do COPOM (Comitê de Política Monetária) e avaliar se realmente a economia de nosso país está se aquecendo, verificando os relatórios de aumento de emprego e de renda emitidos pelo IPEA.

Seja como for, o fato é que o brasileiro vai ter de aprender a empreender e a assumir riscos.”

Eduardo Cezar de Oliveira (Professor da FTT)
Graduado em Administração
Mestre em Contabilidade
Doutorando em Finanças

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2 comentários / Adicionar um comentário abaixo

  1. Eu gostei do tema abordado, economia é um tema pelo qual eu tenho interesse. Porem, me surgiu uma dúvida, pois até onde compreendo a definição de juros é basicamente o retorno de um valor investido, está definição não depende de inflação.

    Vou usar alguns exemplos para ilustrar.

    Exemplo 1: a pessoa A, emprestou para a pessoa B, uma quantidade de 100 unidades de dinheiro e cobrou 10% de juros, o retorno de tal empréstimo, dentro do período acordado, deverá ser de 110 unidades de dinheiro, esse é o tradicional juros positivo.

    Exemplo 2: a pessoa A, emprestou para a pessoa B, uma quantidade de 100 unidades de dinheiro e cobrou 10% de juros, o retorno de tal empréstimo, dentro do período acordado, deverá ser de 110 unidades de dinheiro, porem no período, ouve uma inflação de X%, ela pode ser menor que o juros, ou maior que o juros, independente da situação, trata-se de um juros positivo, o que ocorreu no período é que a inflação desvalorizou o dinheiro, porem, o retorno (juros) em nenhum momento deixou de ser positivo.

    Exemplo 3: a pessoa A, emprestou para a pessoa B, uma quantidade de 100 unidades de dinheiro e cobrou -10% de juros, o retorno de tal empréstimo, dentro do período acordado, deverá ser de 90 unidades de dinheiro, esse é o famoso exemplo do juros negativo.

    Exemplo 4: a pessoa A, emprestou para a pessoa B, uma quantidade de 100 unidades de dinheiro e cobrou -10% de juros, o retorno de tal empréstimo, dentro do período acordado, deverá ser de 90 unidades de dinheiro, porem no período, ouve uma inflação de X%, ela pode ser menor que o juros, ou maior que o juros (módulo), independente da situação, trata-se de um juros negativo, o que ocorreu no período é que a inflação desvalorizou o dinheiro, porem, o retorno (juros) em nenhum momento deixou de ser negativo.

    Ainda há os casos onde a inflação pode ser negativa, a famosa deflação, que é benéfica quando ocorre de maneira natural.

    Gostaria ainda de tecer alguns comentários a respeito de certas colocações que podem trazer a outros leitores, algumas confusões.

    “É exatamente isso que as novas políticas monetárias impostas pelo atual governo querem, ou seja, que o investidor busque novas taxas de atratividade e passe a assumir riscos na economia real.”, essa parte pode dar a entender para o leitor que a aplicação do dinheiro, realizada pelos rentistas, não são reais ou não influenciam no cotiano de todos nós, porem, muito pelo contrário. O que rentistas fazem ao pegar seu capital e aplica-lo em títulos de renda fixa, é justamente, o mesmo que bancos fazem ao vender o crédito depositado pelos seus clientes em suas contas para empresas (desconsiderarei “investimentos” no estado pois é puro prejuízo). Títulos de Renda Fixa, não se limitam apenas empréstimos para o governo, mas também para bancos e empresas, apesar de fazerem parte da mesma “classe” de investimentos, suas características, credores e devedores, variam imensamente. Ao reduzir a taxa de juros artificialmente, como o governo está fazendo (aliás, a Selic é meio que uma tentativa de forçar taxas de juros a seguir um “padrão”), você apenas retira incentivos para os rentistas investirem, e em alguns casos, como já se tem registro histórico, ocorre as chamadas fugas de capital.

    “A resposta é que juros negativos nada mais são do que o índice da taxa de inflação (medido pelo IPCA ou pelo IGP-M) descontada dos 4,5% de juros anuais.”, pelo que eu entendo, essa não pode ser a definição correta, se for verificado o título de alguns países por exemplo, eles apresentavam títulos de 10, 20, 30 anos ou até mesmo mais, e estavam fixados com um retorno negativo, mesmo sem ter uma inflação passando a “taxa base” deles.

    “Se a inflação for maior que os 4,5%, então teremos um cenário de juros negativos. Isso acontece em países de economia sólida como, por exemplo, o Japão, onde o investidor, caso resolva deixar seu recurso financeiro na poupança, irá verificar que o dinheiro vai desaparecendo ao longo do tempo.”, só para esclarecimento, o juros negativo no Japão, se deve a estagnação econômica do país, devido as intervenções das ultimas décadas, que fizeram explodir o número de “empresas zumbis” e os investimentos estagnarem. Como resultado os políticos japoneses resolveram intervir mais, e jogaram o juros a negativo, como resultado, no japão chegou a acabar os estoques de cofre, porque todas as pessoas começaram a comprar e guardar dinheiro em casa, foi um fracasso essa política, e criou escassez de crédito, ou seja, um tiro pela culatra (outra vez). Japão, definitivamente não é uma economia sólida, é uma aberração prestes a devorar a si própria.

    “Por isso, países mais desenvolvidos tendem a ter taxa básica de juros muito baixas como, por exemplo, os Estados Unidos, que atualmente contam com uma taxa de apenas 1,75% ao ano.”, isso se deve ao Quantitative Easing realizado pelo FED desde 2008 para tirar os EUA da crise, que teve como resultado um tremendo de um fiasco, a inflação começou a aumentar e quando tentaram parar (2018-2019) quase estouraram as bolhas que o programa criou (em especial as de ações e imóveis) por conta da volta do crescimento do juros, que acabaria por destruir diversos negócios que só existem hoje por crédito baixo criado artificialmente pelo governo americano via impressão de moeda.

    Enfim, por gostar muito do tema, eu quis participar um pouco da discussão. Espero não ter sido chato ou desrespeitoso, me dediquei ao máximo para evitar isso.

    Espero ver mais sobre esses assuntos.

  2. Danilo, obrigado pela contribuição. O intuito de escrever sobre estes temas de linguagem difícil (inclusive percebe-se que você têm feito a lição de casa muito bem) é popularizar temas de alta relevância e que acabam não sendo explicados. Quando escrevi sobre o tema juros negativos, não me refiro aos juros de empréstimos (aqui tem uma questão que eu falo em sala de aula que é: tanto faz a parte que vai a cabeças, quanto a que vai o chapéu) e sim os juros de renda mesmo (que na verdade é a mesma coisa mas em pontas diferentes, por isso a metáfora do chapéu).

    O que quis dizer é que, se você olha para 5% ao ano e diz: ” Ok, eu aceito receber estes juros de rendimento” não se pode esquecer que o dinheiro ao longo do tempo desvaloriza através da inflação. Neste caso, poupança (que é medida pelo BACEN em quantidade de reservas) e inflação gera influência diretamente na Taxa SELIC. Os 3 itens são amarrados.

    Com relação aos juros negativos, verifique que a inflação atual nos EUA é maior que a taxa básica de juros. Neste caso, deixar o dinheiro em algum investimento atrelado à taxa básica fará com que ao fim de 12 meses, o investidor tenha perdido poder de compra.

    A inflação em 2019 foi de 1,81% enquanto a taxa básica de juros foi de 1, 75%.

    https://pt.inflation.eu/taxas-de-inflacao/estados-unidos/inflacao-historica/ipc-inflacao-estados-unidos-2019.aspx

    https://pt.global-rates.com/taxa-de-juros/bancos-centrais/banco-central-estados-unidos/juros-fed.aspx

    Não sei se pude contribuir para a discussão, mas caso tenha mais algum pontos, por favor sinta-se a vontade.
    Fico feliz de debater pontos da economia e de finanças.
    Forte abraço,

    Eduardo Oliveira

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